Revista CadernoS de PsicologiaS

A atuação da psicologia entre uma UPA 24h e o SAMU 192

Pedro Henrique Moraes
Residente do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental da UEPG

Psicólogo (CRP-08/304880) — E-mail: moraes.pedrohm@gmail.com
Lislei Teresinha Preuss
Departamento de Serviço Social — UEPG

E-mail: lisleipreuss@hotmail.com

#Relatos_de_experiência

Resumo: O presente artigo apresenta um relato de experiência de um residente de Saúde Mental da Universidade Estadual de Ponta Grossa em uma UPA 24h e SAMU 192 com enfoque no atendimento à crise em saúde mental. São apresentadas as características dos serviços e principais ações desenvolvidas. Os resultados focam na necessidade, para práticas de cuidado humanizadas e qualificadas de atenção à crise, de uma atuação que esteja alinhada com os princípios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Destacamos a importância do profissional de saúde escutar e dar atenção à singularidade do sujeito em crise, bem como da importância de discussões interdisciplinares e intersetoriais para promoção do cuidado integral ao sujeito em crise. Destacamos, por fim, a importância do cuidado contínuo em serviços de base comunitária para prevenção à crise, bem como apontamos algumas lacunas na Rede de Atenção Psicossocial local, que evidenciam algumas contradições atuais do campo da saúde mental.

Palavras-chave: assistência à saúde mental; serviços de saúde mental; serviços médicos de emergência; hospital psiquiátrico.

THE ROLE OF PSYCHOLOGY BETWEEN A 24-HOUR UPA AND SAMU 192

Abstract: This experience report presents the performance of a Mental Health resident at the State University of Ponta Grossa in a 24-hour UPA and SAMU 192 with a focus on attending to the mental health crisis. The characteristics of the services and main actions developed are presented. The results focus on the need, for humanized and qualified care practices in crisis care, of actions that is aligned with the principles of the Brazilian Psychiatric Reform. We emphasize the importance of health professionals listening and paying attention to the uniqueness of the subject in crisis, as well as the importance of interdisciplinary and intersectoral discussions to promote comprehensive care for the subject. Finally, we highlight the importance of continuous care in community-based services for crisis prevention, as well as pointing out some gaps in the local Psychosocial Care Network that show some current contradictions in the field of mental health.

Keywords: mental health assistance; mental health services; emergency medical services; hospitals, psychiatric.

EL PAPEL DE LA PSICOLOGÍA ENTRE UNA UPA DE 24 HORAS E SAMU 192

Resumen: Este artículo presenta un relato de experiencia de un residente de Salud Mental de la Universidade Estadual de Ponta Grossa en una UPA 24 horas y SAMU 192 con foco en la atención a la crisis de salud mental. Se presentan las características de los servicios y principales acciones desarrolladas. Los resultados se centran en la necesidad, de prácticas asistenciales humanizadas y cualificadas en la atención en crisis, de una actuación alineada con los principios de la Reforma Psiquiátrica Brasileña. Destacamos la importancia de que los profesionales escuchen a la singularidad del sujeto en crisis, así como la importancia de las discusiones interdisciplinarias e intersectoriales para promover la atención integral al sujeto. Finalmente, destacamos la importancia de la atención continua en los servicios comunitarios para la prevención de crisis, además de señalar algunos vacíos en la Red de Atención Psicosocial local que muestran algunas contradicciones actuales en el campo.

Palabras clave: atención a la salud mental; servicios de salud mental; servicios médicos de urgencia; hospitales psiquiátricos.

Introdução

Este artigo apresenta um relato de experiência nas Redes de Atenção Psicossocial (RAPS) e Atenção às Urgências (RAU) no município de Ponta Grossa-PR, em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h) e no Serviço de Atendimento Médico às Urgências (SAMU 192). Estes dois serviços fazem parte dessas duas redes prioritárias do Sistema Único de Saúde (SUS) e são campos de inserção profissional no segundo ano da Residência Multiprofissional em Saúde Mental da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Durante a inserção, foi realizada a atuação de 7 h por dia na UPA 24h e, consecutivamente, 7 h de atuação por dia no SAMU 192 durante todo o mês de abril.

A experiência teve como foco a atenção à crise em saúde mental, conceito que, no Brasil, apresenta diferentes concepções, modelos de entendimento e conduta (Dias, Ferigato & Fernandes, 2020; Zeferino, Rodrigues, & Assis, 2015). Neste trabalho, não pretendemos fazer um apanhado histórico do conceito de crise e suas diferentes concepções, mas nos atemos às práticas de atenção à crise baseadas no modelo psicossocial de cuidado e atendimento para usuários com sofrimento psíquico agudo ou grave.

O modelo psicossocial é baseado nos princípios da Reforma Psiquiátrica, remetendo à utopia de uma sociedade sem manicômios. Neste modelo, há o foco na ampliação dos direitos sociais das pessoas com transtorno mental, valorização de aspectos subjetivos do sujeito, vinculação terapêutica, inclusão social, temporalidade singular da crise, história de vida e contexto em que a crise emerge (Amarante, 1996; Ferigato, Campos & Ballarin, 2007). Compreendemos a crise como um fenômeno que envolve a expressão da subjetividade e que pode estar relacionada com um momento de ruptura da história do sujeito (Zeferino, Rodrigues, & Assis, 2015). Neste sentido, a crise está associada a grave sintomatologia psiquiátrica, mas não se limita a isso, também referindo-se à vivência subjetiva de ruptura com o mundo e com a organização psíquica anteriormente vivenciada, recusa de tratamento, ruptura de relações familiares, dificuldades do sujeito em estabelecer conexões no plano relacional, entre outros fatores (Zeferino, Rodrigues, & Assis, 2015; Ferigato, Campos & Ballarin, 2007).

Em serviços de pronto-atendimento prevalecem práticas em saúde mental baseadas nos conceitos de urgência e emergência psiquiátrica com foco na sintomatologia psiquiátrica agudizada. Geralmente o modelo de atenção à crise é predominantemente biomédico com critérios que envolvem a objetividade, pragmatismo e ênfase no controle dos sintomas ligados à periculosidade, gravidade, desrazão e incapacidade (Amarante, 1996). A urgência é um conceito que representa uma ocorrência, com ou sem risco potencial de vida, que necessita de assistência rápida (Conselho Federal de Mediciana, 1995). Já o conceito de emergência envolve condições de agravo à saúde que tenham risco iminente de vida ou sofrimento intenso que precisam de intervenção imediata (Conselho Federal de Medicina, 1995). Os atendimentos às urgências e emergências psiquiátricas são de competência técnica dos serviços de urgência e abrangem cerca de 10% de todos os atendimentos de urgência e emergência de hospitais gerais e serviços de pronto-socorro (Santos et al, 2014).

A atenção à crise a partir do modelo psicossocial ganhou maior contribuição teórica e atenção, na medida em que ocorreu o aumento do fechamento de leitos em hospitais psiquiátricos, associado à expansão de serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos (Ferigato, Campos & Ballarin, 2007). A partir disso, a atenção à crise em saúde mental passou a ser uma intervenção possível na rotina de todos os serviços do SUS. Diante do exposto, este relato de experiência visa contribuir com a atuação de outros profissionais de saúde a partir da apresentação e explanação de estratégias utilizadas para atenção à crise. Inicialmente apresentamos algumas características dos serviços em que foi desenvolvido o trabalho, as ações realizadas e os principais resultados obtidos. Posteriormente discutimos quais as principais dificuldades encontradas com base na literatura sobre modelos de cuidado em saúde mental e apresentamos propostas para qualificar a atenção à crise em saúde mental no município. Por fim, fazemos algumas considerações sobre o processo de experiência e suas implicações.

Caracterização dos serviços

A UPA 24h é um estabelecimento de saúde de complexidade intermediária na RAPS e RAU, articulando-se com a Atenção Básica, o SAMU 192, a Atenção Domiciliar, a Atenção Hospitalar e outros serviços de apoio terapêutico e diagnóstico através de fluxos de referência e contrarreferência. Possui como diretrizes o funcionamento ininterrupto de 24horas, equipe assistencial multiprofissional, acolhimento e classificação de risco, realiza acolhimento de pacientes e seus familiares, presta atendimento resolutivo e qualificado para quadros agudizados de natureza clínica e cirúrgica, estabilização, investigação diagnóstica e conduta necessária, garantindo o referenciamento dos pacientes É preconizado que sejam mantidos os pacientes por até 24horas para elucidação diagnóstica ou estabilização clínica com encaminhamento pertinente para cada caso e internação em serviços hospitalares de retaguarda quando necessário (Portaria nº 10/2017).

No município de Ponta Grossa-PR existem duas UPAs 24h. A inserção profissional ocorreu na UPA 24h referência no município para casos de urgência e emergência psiquiátrica para adultos, sendo a outra UPA 24h responsável pelo pronto-atendimento infanto-juvenil. Até o momento não existe nenhum profissional da psicologia que compõe a equipe desta UPA 24h, sendo os atendimentos às urgências e emergências psiquiátricas realizados por equipe multiprofissional composta por médicos(as), equipe de enfermagem e serviço social. Para apresentação do serviço, buscamos os dados do Núcleo Interno de Regulação que contém o registro dos atendimentos prestados em saúde mental de 15 de março de 2021 até 15 de março de 2022. Optamos por estas datas devido à UPA ter iniciado seu funcionamento no início do mês de março de 2021, apresentando os seguintes registros de casos:

Quadro 1. Registro de atendimentos realizados de 15 de março de 2021 até 15 de março de 2022 em uma UPA 24h. Fonte: Núcleo Interno de Regulação UPA 24h

Em relação aos tipos de atendimentos, utilizamos aqueles que se referem a atenção à saúde para pessoas com sofrimento ou transtorno mental, com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas (Portaria nº 3.088/2011) ou que menciona um encaminhamento que solicite internamento psiquiátrico (CAPS). No município são encaminhados via Central de Regulação de Leitos do Estado do Paraná usuários para internamento psiquiátrico pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), contudo para que o usuário seja internado, em alguns casos, o hospital psiquiátrico solicita uma série de exames para admissão solicitados na UPA 24h. Além destes dados, foram levantadas as notificações realizadas pela UPA 24h para tentativas de suicídio. Apresentamos a seguir alguns dos dados coletados durante o período de inserção que se referem ao ano de 2021:

Quadro 2. Notificação de casos de violência interpessoal/autoprovocada em 2021 em uma UPA 24h. Fonte: Núcleo Interno de Regulação UPA 24h (Epidemiologia)

Todos os casos de tentativa de suicídio que dão entrada no serviço são notificados pela equipe e constam nos dados do setor de Epidemiologia. As tentativas de suicídio, entretanto, não são inicialmente registradas na entrada da maioria dos casos como causa do atendimento, o que pode resultar na discrepância dos dados do Quadro 1 e 2. Os dados e informações dos casos notificados por tentativa de suicídio são encaminhados para a 3ª Regional de Saúde do Paraná e para a Coordenação de Saúde Mental de Ponta Grossa-PR, a qual fica responsável por encaminhar os casos para busca ativa pelas equipes dos CAPS. No momento, o município possui um CAPS Infanto Juvenil, um CAPS tipo II, um CAPS Álcool e Drogas tipo II e um Ambulatório de Saúde Mental.

O SAMU 192 é um componente assistencial móvel e possui o objetivo de chegar rapidamente até a vítima acometida de um agravo à saúde que possa levar a alguma sequela, sofrimento ou morte (Portaria nº 1.010, 2012). O atendimento do SAMU às ocorrências em saúde mental é baseado no conceito de urgência e emergência psiquiátrica. Funciona com veículos tripulados por equipe capacitada quando acionados pela Central de Regulação das Urgências, após ligação telefônica pela população para o número telefônico 192. As equipes do SAMU dividem-se em Unidades de Suporte Avançado (USA), tripuladas por no mínimo um condutor de veículo de urgência, um enfermeiro e um médico, e Unidades de Suporte Básica (USB), tripuladas por no mínimo um condutor de veículo de urgência e um técnico ou auxiliar de enfermagem (Portaria nº 1.010, 2012). É responsabilidade do SAMU 192 realizar atendimento ao paciente quando acionados, configurando-se como porta de entrada, que em contato com o regulador médico encaminha para o serviço mais adequado (BRASIL, 2008). O atendimento é feito em residências, locais de trabalho e vias públicas (Santos et al, 2014).

A Central de Regulação Médica das Urgências é uma estrutura física constituída por médicos com capacitação em regulação médica das urgências (MR), técnicos auxiliares de regulação médica (TARM) e radio-operadores (RO) capacitados para atender aos chamados, realizando a classificação e priorização das necessidades de urgência e emergência atendidas, também devendo organizar o fluxo de referência e contrarreferência da Rede de Atenção às Urgências (Portaria n° 1.559, 2008). No município de Ponta Grossa-PR existem no mesmo espaço físico a Central de Regulação Médica das Urgências e a Base Central de Viaturas do SAMU. São realizados atendimentos aos chamados e abertura de ocorrências com envio de viaturas (ambulâncias) para a 3°, 4° e 21° Regionais de Saúde do Estado do Paraná. Também foram levantados os dados da Central de Regulação Médica das Urgências para as ocorrências de urgência e emergência em saúde mental de 2021:

Quadro 3. Registro de ocorrências prestadas pelo SAMU 192 em 202. 1Fonte: Central de Regulação Médica das Urgências de Ponta Grossa-PR

Apesar de buscarmos por descritores que se referem a atendimentos em saúde mental nos serviços, identificamos que alguns são excessivamente genéricos e não detalham precisamente sobre qual demanda ou diagnóstico se referem. “Problemas Psiquiátricos”, “Colapso Nervoso” e “Crise Nervosa” podem referir-se a qualquer situação de sofrimento psíquico, psicossocial ou diagnóstico psiquiátrico. A falta de detalhamento da causa do atendimento pode vir a dificultar a qualidade de planejamento de políticas públicas de prevenção, promoção, recuperação ou reabilitação em saúde mental, devido ao registro generalista ou impreciso.

Método

Dentre as ações desenvolvidas na UPA 24h,  foram realizados atendimentos individuais em leito e em consultório; atendimentos aos familiares e acompanhantes; avaliação psicológica; manejo e atendimento à crise em saúde mental; aconselhamento psicológico; discussão de casos em equipe multiprofissional; encaminhamento e articulação de rede intra e intersetorial; acompanhamento no processo de internamentos involuntários e comunicação para o Ministério Público; e elaboração de documentos técnicos, sendo todas as ações registradas continuamente em prontuário único.

Durante as ocorrências no SAMU 192, foi possível realizar a escuta e atendimento à crise em saúde mental, assim como foram acompanhadas ocorrências de natureza traumática, clínica, pediátrica e obstétrica. Os atendimentos ocorreram no local da ocorrência ou no interior da viatura durante a transferência do usuário para um serviço de urgência e emergência, envolvendo também a orientação de familiares e acompanhantes. Nos casos de crise em saúde mental foi possível fazer o primeiro contato e início da vinculação terapêutica com os usuários, o que facilitou em intervenções futuras quando os usuários eram atendidos na UPA 24h no dia posterior.

Além disso, também foram acompanhados os teleatendimentos na Central de Regulação Médica. Ao final do mês foi elaborado um material e vídeo sobre Urgências em Saúde Mental, que foi disponibilizado para a equipe da Central de Regulação Médica das Urgências. Na cartilha constam quais as demandas para o sistema, qual a melhor abordagem para identificar o problema por telefone, classificação de risco em saúde mental, possibilidades de orientação dependendo de cada caso e a apresentação de todos os serviços da Rede de Atenção Psicossocial na 3ª, 4ª e 21ª Regional de Saúde com objetivo de sensibilizar os médicos reguladores a assegurarem a rede e orientarem os usuários caso não necessitem do atendimento móvel pelo SAMU 192.

Resultados

A maioria dos atendimentos na UPA 24h ocorreu em leitos na Ala de Observação com usuários encaminhados pelo SAMU 192 após uma crise em saúde mental. Observamos que grande parte dos casos encaminhados pelo SAMU 192, ocorria a solicitação de internamento involuntário via Central de Regulação de Leitos, realizada pela equipe médica da UPA 24h. A Central de Regulação de Leitos foi implantada em 2012 pela Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (SESA) para regular as internações no SUS, tendo como objetivo a equidade no acesso aos leitos em hospitais psiquiátricos (Paraná, 2014). O seu funcionamento ocorre também conjuntamente com a Regulação Médica das Urgências em Saúde Mental (Portaria nº 1.559/2008), seguindo as diretrizes da Portaria nº 2.048/2002. Em 2018 havia 1685 leitos disponíveis no Estado do Paraná em hospitais psiquiátricos ou leitos de psiquiatria em Hospital Geral (Paraná, 2018). Destacamos que o município não possui leitos de psiquiatria em Hospital Geral, apresentando apenas leitos em Hospital Psiquiátrico.

Diante deste cenário, muitos usuários permaneciam por horas e/ou dias aguardando uma vaga via Central de Regulação Leitos para algum Hospital Psiquiátrico na observação da UPA 24h. A condição de espera dos pacientes, por ser em um espaço de observação com grande circulação de profissionais e outros pacientes, pode agravar o sofrimento psíquico devido ao estresse decorrente do processo de hospitalização e aumentar a possibilidade de desistência por evasão da UPA 24h. O trabalho desenvolvido pela Psicologia envolveu, a partir das demandas levantadas, o desenvolvimento de estratégias para amenizar o sofrimento em decorrência do grande período de espera para os casos que se mantinham aguardando internamento. Em casos de evasão, era realizado o contato com o serviço de referência do território do usuário, explicando sobre a situação e solicitando a busca ativa. Deste modo, buscou-se acionar a rede de saúde do município para o cuidado em saúde mental.

Neste período, foi possível realizar um trabalho interdisciplinar através da discussão de casos junto da equipe do serviço social, equipe médica e equipe de enfermagem, qualificando e ampliando a conduta nos casos de crise em saúde mental. Como resultados, percebemos a diminuição do número de internamentos psiquiátricos devido ao acionamento e articulação de outros recursos extra-hospitalares para alguns casos, realizando encaminhamentos para os serviços de base territorial que se faziam necessários das redes de saúde e rede socioassistencial. Também foi observado a redução do tempo de espera para internamento psiquiátrico nos casos em que este se fez necessário, devido a maior precisão na avaliação dos critérios diagnósticos para o internamento ocasionada pela discussão dos casos em equipe multiprofissional.

Discussão

Os casos com pedido de internamento involuntário envolviam geralmente risco iminente de vida para si ou terceiros, surto psicótico com ideação suicida, tentativa de suicídio por intoxicação exógena, depressão grave com autonegligência, intoxicação por uso de drogas e síndrome de abstinência alcoólica. Para a maioria dos casos foi observado que, após o atendimento multiprofissional e uso de medicação psicotrópica apropriada, ocorria a remissão da sintomatologia psiquiátrica aguda em algumas horas. Sterian (2000) aponta que em situações de crises pontuais que não necessitam de tratamento à longo prazo, basta a oferta de escuta e intervenção qualificada de profissionais da saúde para atenuar o sofrimento psíquico agudo. Intervenções em crise podem prevenir que problemas pontuais se tornem desordens psíquicas organizadas, doenças crônicas ou incapacidade, bem como serve como tratamento em caso de quadros clínicos que são de longo prazo e apresentam dificuldades pontuais de organização (Bellak & Small, 1969 citado por Sterian, 2000).

Apesar disso, em muitos dispositivos de saúde, nos casos de crise em saúde mental não é frequente uma avaliação qualificada, ocasionando inadvertidamente condutas que levam o usuário para um ciclo ininterrupto de internamentos sem intervir nos fatores de risco para o adoecimento psíquico. Nos casos crônicos, observamos que em grande parte havia o uso irregular da medicação que era evento desencadeador da crise, consequência da ausência de acompanhamento psicossocial comunitário. Para estes casos, buscamos realizar os encaminhamentos pertinentes para outros dispositivos da RAPS. A vulnerabilidade socioeconômica e conflitos infrafamiliares também foram fatores de risco observados nos casos atendidos. Diante desses fatores, um passo fundamental para a continuidade do tratamento é a realização de intervenções com foco nas necessidades e garantias de direitos básicos dos usuários, acionamento da rede de apoio, intervenções para fortalecimento de vínculos familiares e encaminhamentos para a rede socioassistencial.

Em outros casos, observamos que apesar da remissão da sintomatologia psiquiátrica aguda com intervenção profissional apropriada, muitos pacientes ainda eram mantidos no serviço aguardando por vagas em hospitais psiquiátricos. Conforme pontuam Dias, Ferigato e Fernandes (2020), devido aos serviços de urgência e emergência serem centralizados e distantes do território do usuário, apresentam maior concentração de poder e consequentemente menor articulação com a rede. Esse fato ocasionava um período de permanência na UPA superior a 24h, o que contraria o estipulado na Portaria nº 10/2017.

Levantamos a hipótese de que isso ocorre devido a vários fatores desfavoráveis e contrários aos princípios da Reforma Psiquiátrica, dentre eles: a) falta de atenção qualificada em saúde mental nos serviços de urgência e emergência por falta de psicólogos(as), psiquiatra, etc.; b) ausência de educação permanente em saúde mental para os profissionais; c) grande demanda de atendimentos de outras especialidades para a equipe, o que dificulta a realização de atendimento qualificado em casos de saúde mental; d) falta de leitos de retaguarda em hospitais do município; e) não existência de leitos de psiquiatria em hospital geral no município; f) inexistência de um CAPS tipo III no município para prestar atendimento 24h com acolhimento em leito; g) insistência de familiares e dos próprios pacientes pelo internamento psiquiátrico por desconhecimento de outras formas de tratamento em saúde mental no território, como os CAPS.

Entendemos que este cenário loco regional também é consequência do que podemos chamar da “nova” política de saúde mental iniciada a partir de 2016 com a redução de investimentos no SUS e com a Resolução 32 (2017b), que reformula o desenho, o financiamento, a metodologia de avaliação dos serviços e a própria orientação clínica da RAPS (Cruz, Gonçalves & Delgado, 2020). Além do hospital psiquiátrico, esta resolução inclui na RAPS os hospitais-dia, que funcionam sem a lógica do território, bem como buscam fortalecer a parceria e apoio em relação as Comunidades Terapêuticas (Cruz, Gonçalves & Delgado, 2020). Essa “reforma” busca financiar com dinheiro público espaços com característica hospitalar/asilar que não condiz com o referencial da Reforma Psiquiátrica que se pauta em cuidados que valorizem o vínculo, humanização, cuidado de base territorial e construção de projetos terapêuticos singulares.

Além disso, é comum observarmos que a RAPS e a RAU possuem fluxos, lógica de condução e terminologia diferentes, ocorrendo geralmente o encaminhamento dos casos de urgência e emergência psiquiátrica pelo trinômio SAMU – UPA – Hospital Psiquiátrico (Dias, Ferigato & Fernandes, 2020). Este fluxo culmina no usuário passar pelo internamento psiquiátrico independentemente de estar em acompanhamento em um CAPS e sem se esgotarem os recursos extra-hospitalares de tratamento (Dias, Ferigato & Fernandes, 2020). Destacamos que é muito comum, neste fluxo, ocorrer o que na literatura convencionou-se chamar de “porta giratória do hospital psiquiátrico”. Este fenômeno trata-se do ininterrupto ciclo de internamentos dos usuários sem acompanhamento em serviços de base territorial, evidenciando a falta de utilização de outros recursos para compor o tratamento (Santos, 2007).

Compreendemos que o atendimento no momento da primeira crise em saúde mental de uma pessoa, quando é feito com agilidade e com responsabilidade, propicia a melhora do quadro e tende a evitar internamentos futuros (Ferigato, Campos & Ballarin, 2007).  Este tipo de atendimento, contudo, pode ser realizado de modo descentralizado, quando há no município suporte técnico-assistencial qualificado. Uma das características das redes de atenção à saúde é que são poliárquicas, com diferentes pontos de atenção e com população adscrita, possibilitando ações em saúde que façam sentido para as características das pessoas referenciadas ao serviço.

Por fim, uma análise pormenorizada dos dados de saúde mental dos serviços apresentados se faz necessária futuramente. Mesmo sem nos debruçarmos neles como deveríamos, devido à síntese que um relato de experiência exige, já constatamos que são elevados os casos de saúde mental. Esses números reforçam nossos argumentos: a necessidade urgente de investimento em serviços qualificados de saúde mental de base territorial, para que a atenção à saúde mental seja diluída no cotidiano e na vida do usuário, com uma pluralidade de intervenções que possam prevenir e intervir de maneira humanizada na crise.

Considerações Finais

Durante a inserção simultânea na UPA 24h e no SAMU 192, o objetivo foi estabelecer conexões entre os serviços de urgência e emergência e outros pontos de atenção à saúde, contribuindo para a condução, manejo e gestão da crise em saúde mental. Apesar disso, destacamos que devido ao pouco investimento de gestores em serviços como CAPS tipo III e leitos de psiquiatria em hospitais gerais no município, ainda são necessários em alguns casos o encaminhamento para hospitais psiquiátricos. Esta é uma contradição existente no campo da saúde mental diante de um cenário de retrocessos na Política de Saúde Mental Brasileira.

Este relato de experiência focou na contraposição entre modelos de cuidado referente a intervenções em saúde mental, especificamente nas crises em saúde mental. A conformação desses modelos ocorre a partir de determinado contexto sócio-histórico, interferindo no modo como entendemos e agimos enquanto profissionais da saúde diante da saúde mental e loucura. Voltamos a atenção durante a experiência para ações que valorizam o saber das pessoas, usuárias do SUS, que se encontram em momento de crise, buscando dar sentido à crise em interlocução e conexão com sua história, seu território, sua família e sua comunidade. Para isso, foi muito importante o acionamento de recursos e serviços de saúde territoriais para desenvolver estratégias de cuidado condizentes com a Reforma Psiquiátrica Brasileira.

Referências

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APA – Moraes, P. H., & Preuss, L. T. (2022).  A atuação da psicologia entre uma UPA 24h e o SAMU 192. CadernoS de PsicologiaS, 3. Recuperado de: https://cadernosdepsicologias.crppr.org.br/a-atuacao-da-psicologia-entre-uma-upa-24h-e-o-samu-192/

ABNT – MORAES, P. H.; PREUSS, L. T. A atuação da psicologia entre uma UPA 24h e o SAMU 192. CadernoS de PsicologiaS, Curitiba, n. 3. 2022.  Disponível em: https://cadernosdepsicologias.crppr.org.br/a-atuacao-da-psicologia-entre-uma-upa-24h-e-o-samu-192/ . Acesso em __/__/___