Revista CadernoS de PsicologiaS

Mel e Kandiero: Contribuições Negras na História de Curitiba

Valtair José Paulo da Silva
Estudante de graduação em Psicologia na UniBrasil (Centro Universitário Autônomo do Brasil) - E-mail: valtairsilvax1@gmail.com
#Resenha

Kandiero, A. J. S. & Mel, M. R. (2023). Tempo é rei em Curitiba (2ed.). Colombo: Humaitá.

 

A nossa reza é dança,

A nossa dança é luta

É o nosso canto é alma.”

(Kandiero & Mel, 2023, p. 28)

A obra “Tempo é rei em Curitiba” de Melissa Reinehr (Mel) e Adegmar J. Silva (Kandiero) aborda o tema afro, em específico a valorização e a visibilidade da história e cultura afro no estado do Paraná. Para que assim seja possível, Kandiero que atualmente é conselheiro nacional de Valorização Étnico-racial do Ministério da Cultura, fundou juntamente de Melissa o Centro Cultural Humaitá, sendo Presidente e Vice presidenta consecutivamente, assim como a Editora Humaitá, onde publicam diversas obras relacionadas ao tema afro. Entre elas, obras que relatam suas experiências, como o projeto turístico dos mesmos chamado “Linha Preta” em Curitiba, que tem como objetivo dar visibilidade às contribuições negras no desenvolvimento da capital, a partir de referências históricas, percorrendo em seu trajeto vários pontos da cultura negra presente no local, muitas vezes com participação de colégios e faculdades, fazendo parte da educação e conscientização desses alunos.

Mel e Kandiero buscam através do livro conscientizar o leitor acerca da história afro no estado, sua história muitas vezes mascarada, assim como as vivências de ambos em seus projetos, se dirigindo a todos os públicos interessados, que buscam conhecer a verdadeira história afro do local. Para isso, é utilizado a metodologia de cântico durante todo o livro, inserindo palavras e conceitos da cultura afro para instigar o leitor acerca do significado desses termos, juntamente de imagens que trazem a cultura afro no estado, seja de antigas localizações, como a Igreja do Rosário dos Pretos de São Benedito e de suas vivências, como rodas de capoeira, se mostrando uma leitura mais informal, que busca inserir o leitor na cultura afro e sua representação por Kandiero e Mel, sem a necessidade de dados ou números.

Os autores propõem que muito da história afro no Paraná foi mascarada, e em casos, sobreposta por outras culturas estrangeiras, devido a perseguição e a intenção de destruir a história e a cultura afro no estado. Para a construção do contexto dessas propostas, autor e autora relatam em formato de cântico movimentos culturais e regiões importantes para a história afro no estado, indicando o que aconteceu com os mesmo durante o desenvolvimento do estado, como o relato de que “Destruíram uma construção de pedra achando que apagariam a nossa história, mas a história continua viva, porque o corpo é a morada do Sagrado” (Kandiero & Mel, 2023, p. 32) se referindo aos acontecidos com a Igreja dos Pretos que se tratava da construção mais antiga da vila que se localizava, quando foi demolida em 1930 para o terreno ser doado à escravizadores jesuítas.

Cabe destacar a rica contextualização histórica e a escrita muitas vezes expressado em formato de diálogo, que transmite a visão dos indivíduos afetados historicamente por tais ocorridos, inserindo através dessa metodologia o leitor na história, desenvolvendo uma consciência ética por parte dele acerca da importância desta cultura e de como ela foi fortemente atacada por culturas externas no passado, para que assim identificasse este ataque nos tempos atuais. 

No ponto de vista do leitor, as características da obra de explorar a metodologia de cântico para prender atenção do mesmo – mesmo que sem a possibilidade de apreciar a melodia que acompanharia tal cântico, nem mesmo com partituras, me instiga a maneira como sou tão inserido no contexto cultural explorado na obra que acabo percebendo que minha leitura produz minha percepção com sons característicos em meu consciente, despertando meu eu criativo para que a experiência seja complementada a partir disso – e inserir os termos da cultura afro como “Senhor Obaluaiê”, “Panteão Yourubá” e “Orixá” na busca de instigar e produzir curiosidade na leitura – ao ponto de me encontrar em diversos momentos buscando leituras externas em bases de dados da cultura afro na internet buscando entender tais termos – coopera para uma reflexão acerca do conteúdo entregue da cultura afro no estado, se tornando extremamente importante para a valorização dela, junto com a conscientização e a riqueza histórica. Para futuros leitores do texto, pondero a importância que a obra resenhada possui em estudos da psicologia social e comunitária, assim como pesquisas históricas e multidisciplinares. Para além disso, a riqueza gerada em forma de conscientização, que foi minha inspiração para produzir tal resenha, se apresenta como pilar da atuação do psicólogo ético, com uma visão ampla da diversidade cultural na história das sociedades e em sua atualidade, com ênfase para o estado do Paraná.

Como citar esse texto

ABNT —  SILVA, V. J. P. Mel e Kandiero: contribuições negras na história de curitiba. CadernoS de PsicologiaS, n. 5, 2023. Disponível em: https://cadernosdepsicologias.crppr.org.br/mel-e-kandiero-contribuicoes-negras-na-historia-de-curitiba/. Acesso em: __/__/_____

APA —  Silva, V. J. P. (2023). Mel e Kandiero: contribuições negras na história de curitiba. CadernoS de PsicologiaS, 5. Recuperado de: https://cadernosdepsicologias.crppr.org.br/mel-e-kandiero-contribuicoes-negras-na-historia-de-curitiba/