Revista CadernoS de PsicologiaS

O amor em análise: do nó ao laço

Josiane Santos Costa
Psicanalista, Psicóloga, Professora Universitária — E-mail: josianesantos.psicologa@gmail.com
#Estilhaços

É a partir do amor que nos constituímos, é por conta do amor que adoecemos e é pelo amor que nos curamos.

Chegamos ao mundo como um pacotinho de carne, nossa constituição subjetiva se dá pela palavra que vem do outro, fazendo marcas, nos dando contorno, de tal modo que nos põe a respondê-lo. Olha só: quando alguém diz nosso nome, por exemplo, já estamos completamente identificados a essa marca que, de pronto, respondemos certos de que é a nós que o outro quer. Interessante isso, não?! A palavra marca, portanto, o que um sujeito representa para outro e, não responder desse lugar, é arriscar ficar de fora da mira do outro, quer dizer, perder-se do amor do outro. 

E assim o sujeito vai se constituindo: um corpo, uma ideia, uma imagem que refletem suas primeiras experiências de satisfação no encontro com o semelhante, lá de quando, supostamente, era tudo o que faltava na vida do outro: “o amor da mamãe”, “a majestade, o bebê”.

Mas não só de majestade se faz um sujeito. Quando experimenta a frustração de suas demandas é marcado pela experiência com a falta e na tentativa de remendar sua ferida narcísica, insiste em fazer-se objeto de amor ideal para o outro. É aí que o sujeito faz sintoma, adoece, na tentativa de refazer aquele arranjo primeiro em que tinha a ilusão de fazer Um com o outro, amante-amado.

Em psicanálise, o amor é aquilo que enlaça o sujeito com o outro desde a sua constituição até o desenrolar de toda sua história. Se o que o sujeito deseja é o desejo do Outro, em outras palavras, ama para ser amado. Contudo, se faz disso exigência, se escraviza e faz escravizar. Na tentativa de aniquilar a falta, aniquila junto o desejo. Adoece. Padece, pois, de amor.

Assim, falar do percurso de uma análise é falar de uma história de amor que pode ser lida, recontada, recriada. A gente se deita no divã para cair na real. Desconstruímos, ao menos um cadinho, o sentido de nossas demandas narcísicas de amor. Despertamos para a separação, recuperamos a nossa falta afiançada ao Outro como garantia de amor e com ela voltamos a desejar e a amar. Trilhar o caminho de um a análise é ir do amor ideal ao amor possível, do nó ao laço.

Como citar esse texto

ABNT — COSTA, J. S. O amor em análise: do nó ao laço. CadernoS de PsicologiaS, n. 4. Disponível em: https://cadernosdepsicologias.crppr.org.br/o-amor-em-analise-do-no-ao-laco/Acesso em: __/__/___.

APA — Costa, J. S. (2023). O amor em análise: do nó ao laço. CadernoS de PsicologiaS, 4. Recuperado de: https://cadernosdepsicologias.crppr.org.br/o-amor-em-analise-do-no-ao-laco/